Friday, November 23, 2007

À Lygia. E à Ana

Minha admiração por Lygia Fagundes Telles é antiga. Quando li Pomba enamorada ou Uma história de amor, me senti meio presa. Não conseguiria mais esquecer. Alguns anos depois, quando encontrei a escritora caminhando pelos corredores da Feira do Livro de Porto Alegre (momento delicioso da capital gaúcha, principalmente para quem ama a literatura e a primavera!) me senti na obrigação de agradecer-lhe.
- Coisa mais linda é escrever assim, Dona Lygia!

Já a Ana eu conheci em poucas conversas. Ela é ascensorista, num prédio bem antigo da Rua da Praia, também em Porto Alegre. Eu ai sempre lá pra buscar uma pessoa. E esperava no hall de entrada. E ela estava sempre lá. Dentro do elevador. E sempre lendo alguma coisa. Um dia provoquei, meio óbvia, pra começar a conversa: “Gostas de ler?”. Ela estava lendo Saramago. Fechou o livro com cuidado e olhou pra mim. A Ana era bem magrinha, uns 45 anos: “Adoro!”. Nos tornamos amigas. Conversamos sobre muitos livros. Uma figura a Ana, subindo e descendo com literatura.

Um dia, tentei escrever um conto pensando nas duas. Saiu o que segue. Usando as duas, mesmo sem pedir licença. Mas com muito carinho. O conto integra o livro Contos de Oficina 28 (WS Editor/Porto Alegre/2002), organizado pelo professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, super mestre, que nos deu aula durante um ano.


Da série Contos de Gaveta:
(5)
Minha vida é um livro aberto
(Adriane Canan - Porto Alegre/2002)

Ana chega ao trabalho com o livro embaixo do braço. A mesma cena de sempre: o livro embaixo do braço, a sacola marrom com o almoço e o casaquinho para a saída, no início da noite. Entra no prédio comercial da Rua dos Andradas. Dá um bom dia simples ao porteiro e espera o elevador. A porta se abre e Ana dá um passo para dentro. Aperta o botão para prender o elevador e baixa o banquinho para sentar-se. Ajeita a sacola no cantinho. Ajeita também o corpo magro no cantinho, acomodando-se com tranqüilidade em seu lugar cotidiano. Tira o livro debaixo do braço e vai para a página 30, na marcação de ontem.

- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo...

Chega a moça da imobiliária do terceiro andar. Entra no elevador e a saudação vem do olhar. Ana aperta o botão com o número três. “Sobe”. Fecha-se.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada...

O terceiro andar tem poucas salas ocupadas, mas sempre há um office-boy esperando para subir mais, entregar mais encomendas, falar com o senhor fulano do oitavo. Ana segura o botão: a secretária sai, o garoto entra, agitado com o rádio nos ouvidos. Ana é quieta. “Sobe”. Fecha-se.

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou a olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha um sorriso meio inocente, meio malicioso.

“Oitavo”. A porta do elevador se abre e o boy desce apontando a cabeça para um lado e para outro, procurando a sala, o número, o senhor fulano. Ana segura um pouco o elevador. Deixa a porta se fechar devagarinho, como aprendeu a controlar. Fecha-se.

- Ricardo, abre isso imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco. – Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida.


Naquele horário das nove e pouco o movimento é lento no prédio. Ana desce até o térreo sozinha.

Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais bonito do mundo.
Ela sacudia a portinhola.

Ana lembra-se da filha.. Fica pouco com ela. Passa mais tempo ali, das oito às seis. O elevador está de volta ao térreo. O porteiro olha um folheto de loja. A porta fica aberta. O elevador preso.
Chegam dois rapazes da representação técnica do décimo. Ana espera um pouco. O porteiro grita: “sobe”. Entram mais dois, desconhecidos, para o quinto. O porteiro grita: “sobe”. Entram mais três, os advogados do sétimo. Ana dá uma olhada para fora. Solta o elevador. A porta bate, o elevador é velho, de prédio velho. Faz oito anos que Ana conhece aquilo ali. Começa a subida. Ana conhece bem os comandos. Ana conhece bem cada pessoa daquele prédio. Ana abre e fecha.

Guardando a chave no bolso ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

São muitas pessoas no elevador.
- Não!

“Quinto”. Abre. Descem os desconhecidos. “Sobe”. Fecha-se.

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado...

Os advogados sempre conversam muito no elevador. Atrapalham a leitura. Mas Ana é quieta. “Sétimo”. Ana tem os controles, faz a porta abrir-se devagar, angustiante.

Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento.

Os advogados descem. “Sobe”. Fecha-se. Passa o nono, chega ao décimo. Abre. Descem os técnicos do décimo. “Desce”. A porta se fecha devagar. O elevador desce devagar. Ana está terminando, ali, sozinha, no cantinho.

Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Térreo. Abre-se. Ana vira a página para o próximo conto.


**As passagens em itálico foram retiradas do conto "Venha ver o pôr-do-sol", de Lygia Fagundes Telles

Monday, November 05, 2007

céu
terra


Wednesday, October 31, 2007

Gracias a la vida

Violeta Parra

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me dio dos luceros, que cuando los abro,
perfecto distingo, lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me ha dado el oído, que en todo su ancho,
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro:
madre, amigo, hermano y luz alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto, los dos materiales que forman mi canto,
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos,
que es mi propio canto.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.

Friday, October 19, 2007

Parabéns, amigos!

A reportagem Madeira e Sangue, do jornalista Dauro Veras, com fotos de Sérgio Vignes e arte de Frank Maia, publicada pelo Instituto Observatório Social, recebeu Menção Honrosa no XXIX Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Clique aqui para ler a matéria!

Tuesday, October 09, 2007

Quero ver esse curta!



El tigre saltó y mató...pero...morirá...morirá

Testimonio de la lucha del pueblo chileno mediante la imagen del cantante chileno Víctor Jara, asesinado brutalmente por la Junta Fascista. Realização de Santiago Álvarez, cineasta cubano, em 1973.

Monday, October 01, 2007

Blindness

Fernando Meirelles está publicando uma espécie de diário de filmagens de "Blindness", seu novo filme, que é baseado em "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Vale conferir os textos do diretor de "Cidade de Deus" e "Jardineiro Fiel". Espie!

Saturday, September 22, 2007

De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles

Tuesday, September 18, 2007

Recebi do Fernando Evangelista o vídeo Tchau, pai. Tocante.

http://br.youtube.com/watch?v=9CQno9hKJQM

Saturday, September 15, 2007

A função da arte

Diego não conhecia o mar.
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,
pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!

[Eduardo Galeano, em O livro dos abraços]

Friday, September 07, 2007

Arte: Gustavo de Souza

Brasil Plural divulga curtas selecionados!

Confira no BLOG do Brasil Plural os curtas brasileiros que vão para a Europa na 10ª edição!

Thursday, September 06, 2007

Da série Contos de Gaveta:

(4)
Latinhas
(Adriane Canan - Porto Alegre, 2001)

Chicão era conhecido por todos na cidade. Na verdade não por ele mesmo, mas por sua mania de colecionar latinhas. Ao lado de sua casa, no alto do morro, erguiasse um tremendo monte delas. Eram de todos os tipos e formas: redondinhas, chatas, quadradas, retangulares e muitas outras. Quem passava todos os dias lá embaixo na estrada ficava admirado com a altura cada vez maior daquela que parecia uma cordilheira formada por latinhas velhas, enferrujadas pelo tempo.
- É mesmo um louco o Chicão! Passa a vida juntando tranqueiras - diziam todos.
Mas o Chicão nem ligava. Tinha suas razões. Durante o dia saia pelas ruas, batucando com um pequeno pedaço de madeira numa de suas latinhas. Era um jeito de chamar a atenção das donas-de-casa que, já sabedoras que eram da mania do vivente, guardavam os recipientes vazios para presenteá-lo. Passava muito bem por louco o Chicão. Não foram poucas as vezes que tomou banho de mangueira forçado no posto de gasolina, empurrado pelos frentistas. É que o Chicão, na sua loucura pelas latinhas ou marcado pela pobreza do lugar onde vivia, esquecia-se dos banhos.
Era uma lenda o Chicão. Anos e anos se passaram sem que ninguém conseguisse entender sua fascinação pelas latas. Às vezes as pessoas se davam conta também que mesmo do Chicão nada se sabia.
- Cresceu sozinho. Não conheceu a mãe. É meio retardado o coitado.
Então, por aqueles tempos, apareceu na cidade uma mulher. Vinda não se sabe de onde, fez sua primeira aparição na missa do domingo. Bem na hora do sermão, entrou na igreja, passos rápidos em direção ao altar. Começou a falar muito alto, num despejar de palavras quase impossível de entender. Nos bancos, ajoelhadas, as pessoas que acompanhavam a missa observavam estupefatas que aquela mulher, maltrapilha e descabelada, como saída de um redemoinho, tinha feições familiares.
Naquele momento, estrondo ensurdecedor se fez ouvir num raio de milhares de quilômetros. Era como se milhões de sinos estivessem tocando ao mesmo tempo, num mesmo lugar, mas com um volume descomunal. E lá, no alto do morro, o Chicão sorria feliz enterrado até o pescoço em sua enorme montanha de latinhas.

Sunday, September 02, 2007


Tão longe, tão perto (Win Wenders, 1993)

Thursday, August 30, 2007

espero que tudo isso termine logo
logo

Sunday, August 26, 2007

***experimentações digitais de amanda canan campos:


# mais algumas da amanda:







Sunday, August 12, 2007

Da série Contos de Gaveta:

(3)
Tão perto
(Adriane Canan - Porto Alegre, 2001)

Sebastiana mora sozinha numa peça alugada. Pequena e velha, cabem poucas coisas ali. Ela tem poucas coisas: uma cama, uma estante, um televisor, um fogão. Também tem um filho internado para tratamento psiquiátrico, bem perto, duas quadras da rua onde mora. Sebastiana é tranqüila e lúcida: o filho ela trata desde bem pequeno!
Ela sai todos os dias cedo.

Pedro não move a perna direita. Vive de favor nos fundos de uma serralheria. O dono permitiu, mas Pedro não pode sair aos sábados e domingos. A serralheria fica fechada, as chaves ficam com o Vilmar, o proprietário.

Sebastiana chega ao hospital antes das sete horas da manhã. Já é conhecida por todos os funcionários e entra devagar, no seu passo velho. O filho tem dias de amuado, não fala com ela, passa assim, quieto. Sebastiana não se importa, admira o filho daquele jeito: é o que Deus deu. O marido, morto há 25 anos, batia nele. Mas ela não, ela sempre teve calma.

Apesar de não movimentar a perna direita, Pedro faz caminhadas todos os dias pela quadra. Empurrando um velho carrinho de supermercado ele segue improvisando os passos. Com pedaços de uma bicicleta velha da serralheria ele achou também uma maneira de fazer exercícios. O médico fala que é bom. Algumas coisas do corpo do Pedro também são da serralheria.

Sebastiana volta para casa pelas seis da tarde. Não tem dormido direito. O homem que aluga a peça ao lado bate nas paredes, arranca pedaços. Ela está procurando outro lugar - o aluguel está alto, cortaram a luz e a água -, mas é coisa demorada, é difícil encontrar espaço para algumas coisas. Encontra a mulher que mora na peça ao lado, com a filha, as duas trabalham com antigüidades.
- E a nossa velhinha? Como vai a nossa velhinha? - diz a mulher. Ela encosta a mão no ombro de Sebastiana e ela dá um sorriso agradecido.
- E os negócios, minha filha? - Sebastiana sempre preocupada, querendo saber das pessoas e de suas vidas.
- Vendendo pouco, vendendo pouco.
As duas entram na casa branca e comprida de janelas marrom.

Pedro empurra o carrinho de volta à serralheria. Está atento ao movimento que acontece lá. Ele sabe que o Vilmar anda metido com drogas. Durante a noite o movimento cresce ainda mais na serralheria. Pedro se tranca no quartinho, fica quieto. Eles vêm aqui, cheiram e ficam loucos. Pedro pensa em mudar de lugar, procurar outra casa. Mas é coisa demorada, é difícil encontrar espaço para algumas coisas. Antes de entrar na serralheira, Pedro ouve uma porta batendo e olha para outro lado da rua.
É uma casa branca e comprida de janelas marrom.

Tuesday, August 07, 2007

De Historias de Cronopios y de Famas, de Julio Cortázar:





Instrucciones para llorar

Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente.

Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca.

Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia dentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.



Sunday, August 05, 2007

Da série Contos de Gaveta:
(2)
Beleza
(Adriane Canan, Porto Alegre, 2001)

Pinta os olhos com força. Realça. Verde em todo o contorno. Em cima. Embaixo. O espelho é pequeno mas ela vê tudo. É de manhã cedinho. Os taxistas que vararam a noite ainda conversam alto na frente do Bar Carinhoso. Dois ou três restos de madrugada vagam pelo início do dia. Bêbados.
Agora coloca os brincos. Grandes. Vistosos. Dourados. Dá mais uma olhada no espelho. Uma olhada de cada lado. Bonito! Começam a passar os primeiros ônibus da manhã. Rápidos. Mais um dia começa naquela esquina.
Depois de seis anos morando num abrigo, ela decidiu procurar a rua. Cansou da cara das pessoas, cansou do lugar.
Ela era realmente um doce de pessoa, só queria descobrir outras coisas. Acordou mais cedo um dia, talvez uma segunda-feira, juntou um saco plástico, uma muda de roupa, um estojo de maquiagem que ganhara de uma amiga. E só. Saiu como quem sai de passeio, como quem sai por aí.
No começo ela foi procurada. Mas por pouco tempo. Buscou um lugar fixo, só para dormir. Encontrou uma calçada, uma calçada movimentada, um cantinho perto da porta do Bar Carinhoso, que enchia de gente nas noites de pagode. Ali se sentia acolhida, menos só.
O barulho começa cedo da manhã na esquina. No meio das coisas estendidas na calçada ela procura o vestido preto. Acha. Tira a roupa amassada da noite mal dormida. Coloca o vestido amassado, tirado do saco de suas poucas coisas. O fecho fica aberto. Está quebrado. Passam pela rua dois rapazes que trabalham na padaria.
O sapato é daqueles de plástico. Fáceis de colocar, ainda mais com duas tiras cortadas. Aquelas que apertavam muito. Está pronta. Junta os pertences do chão. O saco preto tem bastante espaço. Como travesseiro ela costuma usar uma blusa velha de lã. Daí é só dobrar e ensacar.
Toca o sino da Igreja da Sagrada Família. Sete horas. Ela sai para procurar o café da manhã. Vai voltar lá pelas seis da tarde, deixa dito aos taxistas que têm ponto na frente daquela esquina.

Friday, August 03, 2007

Da série Contos de Gaveta:

(1)
Final Feliz
(Adriane Canan)

Naquele dia banhou-se como nunca havia feito com sabonete novo e depois usou perfume comprado de catálogo dos mais caros para ficar demais cheirosa e preparada. Depois no roupeiro procurou o vestido branco de renda nos braços finos. Colocou-o com tranqüilidade e com olhar profundo no espelho.
Os cabelos ainda estavam por pentear e esperavam por eles os dois prendedores plásticos da cor do vestido que já estava vestido. Faltava o sapato que era talvez velho e de pouco uso.
Eram oito horas da manhã e saiu de casa arrumada. Passeou na cidade pequena com seus olhos guardando cada pedaço. Tinha deixado tudo pronto em casa e as horas passaram lentamente naquele sábado. Seria um dia com final feliz. Voltou já era noite. Foi enterrada junto ao noivo motorista de caminhão que um dia não voltou de viagem.

La Latina: cinema latino-americano

Descobri um blog bem legal. Chama-se La Latina e é de uma ex-aluna da Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba, Camila Moraes. Muita informação sobre cinema latino-americano. Vale espiar sempre!
Outra dica é o Cuba-Cursos com informações sobre a EICTV e todos os cursos oferecidos lá.